Inadimplência recorde: o que muda no crédito PJ
9,3 milhões de empresas estão inadimplentes no Brasil, novo recorde histórico. Entenda o impacto no custo do crédito e na gestão de caixa corporativa.

Resumo: A inadimplência empresarial no Brasil atingiu 9,3 milhões de CNPJs em agosto de 2026, o maior patamar da série histórica da Serasa Experian. Em paralelo, o Banco Central registrou inadimplência de 5,0% na carteira total do Sistema Financeiro Nacional, também recorde. O cenário encarece o crédito corporativo, pressiona o capital de giro e exige atenção redobrada à posição de caixa.
O dado mais recente da Serasa Experian, divulgado em 21 de outubro, confirmou a tendência: o número de empresas negativadas cresce mês a mês em 2026. A Selic recuou de 15% no início do ano para 13,75% em setembro, mas os cortes ainda não reverteram a dinâmica de estresse financeiro corporativo.
Este briefing detalha os números, explica os canais de transmissão para a tesouraria e lista os indicadores a acompanhar nas próximas semanas.
📌 O que aconteceu esta semana
1. Inadimplência empresarial bate novo recorde
Segundo levantamento da CNN Brasil com dados da Serasa Experian, o número de empresas inadimplentes chegou a 9,3 milhões em agosto de 2026, alta de 14,3% em relação ao mesmo mês de 2025. Ao todo, foram 68,2 milhões de dívidas, somando R$ 244,4 bilhões. Em média, cada CNPJ acumulava 7,4 contas negativadas, com dívida média de R$ 26.355.
As micro e pequenas empresas concentraram 8,8 milhões dos CNPJs inadimplentes, com R$ 211 bilhões em débitos. O setor de serviços respondeu por 56% das empresas negativadas, seguido pelo comércio (32%) e pela indústria (8%). A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, apontou que os juros elevados e a desaceleração da atividade estão entre os principais fatores de pressão.
Impacto na tesouraria: Em cadeias produtivas com alto nível de inadimplência entre fornecedores e clientes, o risco de contágio sobre o contas a receber aumenta. Uma empresa saudável pode ter seu fluxo de caixa afetado se contrapartes relevantes atrasam pagamentos. Monitorar a qualidade do recebível e o prazo médio de recebimento (DSO) ganha importância nesse ambiente.
2. Crédito bancário desacelera e fica mais caro
Os dados mais recentes do Banco Central, referentes a agosto de 2026, mostram que a inadimplência da carteira total do SFN atingiu 5,0%, alta de 0,9 ponto percentual em 12 meses. No crédito livre a pessoas jurídicas, a inadimplência se manteve em 3,3%. O Relatório de Política Monetária de setembro de 2026, publicado pelo Banco Central, indicou que as concessões de crédito livre a empresas cresceram apenas nas linhas de curto prazo, como antecipação de faturas de cartão e capital de giro com prazo de até um ano.
Ao mesmo tempo, as captações no mercado de capitais doméstico recuaram. Isso sinaliza que empresas de maior porte, que antes se financiavam via debêntures e CRAs, voltaram a disputar crédito bancário, pressionando spreads para companhias de menor porte.
Impacto na tesouraria: A concentração das concessões em linhas de curto prazo eleva o risco de refinanciamento. Uma tesouraria que depende de rolagem frequente de capital de giro fica mais exposta a variações abruptas de taxa. A taxa média do crédito livre para empresas estava em 24,2% ao ano em agosto, segundo o Banco Central, com variação relevante entre modalidades.
3. Recuperações judiciais em nível recorde
Conforme reportagem da Bloomberg Línea, o primeiro semestre de 2026 registrou 6.341 empresas em recuperação judicial ativa, alta de 6,2% sobre o encerramento de 2025 e de 66% em três anos, segundo a consultoria RGF-BizDoc. Micro e pequenas empresas hoje lideram os pedidos, chegando ao processo com menos estrutura para atravessar o longo período de tramitação, que dura, em média, quatro anos e meio.
Impacto na tesouraria: O aumento das recuperações judiciais no ecossistema de fornecedores e clientes pode gerar provisões adicionais para devedores duvidosos (PDD) e afetar diretamente a previsão de caixa. Empresas que atuam como credoras de companhias em RJ enfrentam congelamento de recebíveis, incerteza sobre prazos de recuperação e, frequentemente, deságio relevante sobre o valor original dos créditos.
Por que os cortes da Selic ainda não aliviaram o crédito?
A Selic passou de 15% para 13,75% entre março e setembro de 2026, uma redução de 125 pontos-base. Contudo, a transmissão para o custo efetivo do crédito corporativo é defasada. Os contratos de capital de giro e desconto de duplicatas costumam ser reprecificados em intervalos de 90 a 180 dias. Além disso, o spread bancário tende a subir em ambientes de inadimplência elevada, compensando parcialmente a queda da taxa básica.
O próprio Copom, na ata de sua última reunião, observou que "a desaceleração do crédito livre" já era visível, mas que o crédito direcionado continuava elevado, sustentado por programas governamentais. Para a gestão de liquidez corporativa, o cenário significa que o custo financeiro continua alto mesmo com a Selic em trajetória de queda.
Onde a pressão aparece no balanço
Capital de giro de curto prazo
Dados do Banco Central indicam que as concessões de capital de giro com prazo de até um ano cresceram no trimestre encerrado em julho, enquanto as linhas de prazo mais longo recuaram. Esse encurtamento do perfil de dívida é um sinal clássico de estresse: empresas rolam dívida em prazos curtos, mais caros e mais vulneráveis a choques de liquidez.
Aumento da despesa financeira líquida
Conforme o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, publicado em outubro de 2026, houve redução no número de companhias que registraram aumento no lucro líquido, acompanhada de alta nas empresas com elevação da despesa financeira líquida. A combinação de Selic ainda alta e spreads crescentes pressiona o resultado financeiro.
Demanda por crédito em alta, apesar do custo
Segundo a Serasa Experian, reportada pelo Finsiders Brasil, a demanda das empresas por crédito avançou 11,2% nos 12 meses encerrados em agosto de 2026. As concessões de capital de giro de curto prazo subiram 113,9% no mesmo período. Em contexto de inadimplência recorde, esse movimento indica que as empresas buscam crédito para sustentar o caixa e manter a operação, e não para expandir os negócios.
O que monitorar na semana que vem
Estatísticas de crédito do Banco Central (setembro)
Na quinta-feira (29/10), o BC publica a nota à imprensa sobre política monetária e operações de crédito referente a setembro. Esse dado mostrará se a inadimplência no SFN continuou subindo e como as concessões se comportaram após o corte da Selic para 13,75%.
Estatísticas fiscais (setembro)
Na sexta-feira (30/10), saem as estatísticas fiscais de setembro. O resultado primário do governo central e a trajetória da dívida pública são variáveis que afetam diretamente o prêmio de risco na curva de juros e, consequentemente, o custo do crédito privado.
Relatório Focus semanal
O Boletim Focus, publicado na segunda-feira, traz as expectativas do mercado para Selic, inflação e PIB. Revisões nas projeções de juros para o fim de 2026 e início de 2027 sinalizam o ritmo esperado de alívio no custo do crédito.
A Datanomik conecta os bancos da empresa por API e Open Finance e consolida a posição de caixa ao longo do dia.
Perguntas frequentes
O que significa a inadimplência de 5% no SFN?
É o percentual da carteira de crédito total do Sistema Financeiro Nacional com pelo menos uma parcela atrasada há mais de 90 dias. Esse indicador, divulgado mensalmente pelo Banco Central, atingiu 5,0% em agosto de 2026, o maior nível da série histórica. Ele inclui operações de crédito livre e direcionado, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas.
A queda da Selic já reduziu o custo do crédito para empresas?
Parcialmente. A taxa média do crédito livre para empresas estava em 24,2% ao ano em agosto, uma queda de 1,0 ponto percentual no mês, segundo o Banco Central. No entanto, o spread bancário tende a subir quando a inadimplência está alta, o que amortece o efeito da redução da Selic sobre o custo efetivo do crédito para o tomador.
Como a inadimplência de terceiros afeta a tesouraria de uma empresa saudável?
O principal canal é o contas a receber. Se clientes ou distribuidores atrasam pagamentos, a empresa pode ter um gap de liquidez mesmo sendo financeiramente sólida. Além disso, fornecedores em dificuldade podem interromper entregas, forçando compras emergenciais com condições de pagamento menos favoráveis. Esses efeitos tornam a visibilidade sobre o fluxo de caixa e a posição de caixa em tempo real fatores críticos para antecipar problemas.
As micro e pequenas empresas representam risco para grandes corporações?
Sim, por meio das cadeias de valor. Micro e pequenas empresas representaram 8,8 milhões dos 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes em agosto de 2026. Para grandes empresas que dependem dessas companhias como fornecedoras ou prestadoras de serviço, o risco de interrupção operacional e de perdas em recebíveis cresce proporcionalmente à deterioração financeira desse segmento.



